Resenha do Filme “Flor do Deserto” (Desert Flower) (2009, Sherry Hormann)

TIGV – Direitos Humanos

Resenha de Filme: Flor do Deserto

Luiz Henrique Dias da Silva – 3A/ noite

 

O filme Flor do Deserto, da diretora Sherry Hormann (2009) narra a história verídica de Waris Dirie, garota somali que, aos 13 anos, foge de sua tribo, de seu país e de seu continente, rumo à Londres, na tentativa de escapar de um casamento arranjado. Ela seria a quarta esposa de um muçulmano local, conforme costume regional. Porém, apesar de suas desventuras na fuga, atravessando desertos, escapando de um estupro quando pede carona e até da rejeição de suas primas e tias na tribo liderada por sua avó, Waris ainda estava por enfrentar seu maior desafio: a adaptação a uma nova cultura[1] e a descoberta de que era “diferente” das outras mulheres.

Waris descobre que é diferente quando revela à amiga Marylin que foi circuncisada aos 3 anos de idade, seguindo costume de seu povo. Embora sofra dores e tenha dificuldades até mesmo para urinar, ela acha tudo muito normal. Porém, a amiga lhe diz que as mulheres inglesas e em muitas outras partes do mundo não sofrem o que ela sofreu. Do ponto de vista do debate Universalismo[2] versus Relativismo[3] nas Relações Internacionais e, em especial, quanto à discussão em torno dos direitos humanos, o que se estabelece a partir de então é uma exposição dos núcleos duros de cada corrente de pensamento.

O universalismo traz a ideia de que a identidade do indivíduo é formada antes das relações sociais e, portanto, a sociedade é a soma de indivíduos. Por este viés, o indivíduo Waris teria direitos naturais universais inerentes à sua condição de ser humano. Estes direitos, do ponto de vista moral, seriam o de ir e vir, de liberdade de expressão, de escolha quanto ao marido ou mesmo se iria querer se casar; em suma: direitos individuais com um piso mínimo aceitável frente à comunidade internacional. Mas tal não se verifica em se tratando de costumes, como o da circuncisão ou do casamento arranjado, comuns em grande parte da Somália.

O que o filme mostra é justamente a maior dificuldade dos Direitos Humanos Universais intervirem em assuntos tão relativos como os relacionados às diferentes culturas. A visão de que a circuncisão é feminina é meramente um ato de barbárie, sem considerar que é um costume de 3 mil anos (passado de geração em geração na Somália e em outras partes do mundo) revela o traço etnocêntrico da visão colonizadora. Segundo tal preconceito, tal ato só é praticado porque tais povos não conhecem a verdadeira cultura (ocidental), não sabem e não entendem o que é certo e que, a partir do momento em que forem informados (aculturados) passarão a agir em conformidade com o que pregam os direitos humanos.

Já o núcleo duro do relativismo apresenta a sociedade como um todo. Neste sentido a identidade não é individual, mas moldada de forma relacional, segundo uma perspectiva histórica e cultural especificamente situadas (no caso do filme, uma comunidade de pastores no deserto da Somália). Se nesta comunidade específica os sistemas morais têm validade relativa e não assumem caráter universal, como poderiam as premissas dos direitos humanos ali se efetivarem? A resistência é grande e parte principalmente das mulheres que circuncisam ou levam suas filhas para a castração. Não parece haver sentimento de culpa pela dor física, pelos traumas futuros (estes no pensamento ocidental) e nem mesmo quanto à possibilidade de morte (que acontecem em grande número). O costume fala mais alto e a mulher não circuncisada é considerada impura, não pode se casar, é expulsa da comunidade e tratada como prostituta (muitas delas não tendo mesmo outra opção de sobrevivência).

Uma ressalva é necessária: Quando dizemos que o relativismo é situado histórica e culturalmente não significa que ele esteja preso a localidades. O enfermeiro somali que traduz para Waris a intenção do médico britânico de operar a moça para que ela não sinta mais dores está completamente inserido na cultura de seu povo, mesmo vivendo em Londres e trabalhando em um hospital. O enfermeiro diz a Waris que a operação seria uma vergonha para seu povo e uma ofensa a um costume tão antigo. O médico, por sua vez, age com naturalidade. Ele não parece se alarmar com a mutilação da jovem somali. O médico sabe que não pode “devolver o que foi tirado” (em suas próprias palavras), mas pode providenciar para que ela não sinta mais dor.

A ambiguidade no debate universalismo versus relativismo também se faz presente no discurso de Waris na Organização das Nações Unidas (ONU). Ela se refere à circuncisão praticada por seu povo como algo brutal e bárbaro, repetindo palavras usadas normalmente por defensores dos direitos humanos universais. Flor do Deserto funciona como denúncia, como relato de uma experiência traumática, mas não avança no debate e talvez nem tenha sido esta a intenção. Sabemos por leituras, por vídeos e pelas redes sociais que existem propostas para que se estabeleça um meio termo entre o universalismo e o relativismo. Há propostas de que, enquanto não seja abolida a prática da circuncisão feminina, ela seja ao menos praticada dentro de padrões de higiene e cuidados médicos. Mas também estas propostas esbarram na cultura, em 3 mil anos de história e costumes e na resistência de um grupo que acredita estar defendendo a sua cultura.

 

Flor do Deserto está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=BrZEvSrGUpQ

 

REFERÊNCIAS

(HERNANDEZ, Mateus de Carvalho. Universalização do Debate sobre Direitos Humanos no Pós-Guerra Fria: A Conferência de Viena (1993). Disponível em: http://citation.allacademic.com/meta/p_mla_apa_research_citation/3/8/1/1/8/pages381185/p381185-1.php

Acesso em: 04 de março de 2013.

 

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 14 ed. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Ed., 2001.


[1] Segundo Roque Laraia (2001), “Culture é um complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes e capacidade/ hábitos adquiridos”.

[2][2] Esta visão aponta os direitos humanos fundamentados sobre a crença de que “todos os indivíduos são iguais, e como tais, possuem igual valor intrínseco”. (HERNANDEZ, Mateus de Carvalho. Universalização do Debate sobre Direitos Humanos no Pós-Guerra Fria: A Conferência de Viena (1993). Disponível em: http://citation.allacademic.com/meta/p_mla_apa_research_citation/3/8/1/1/8/pages381185/p381185-1.php

Acesso em: 04 de março de 2013.

[3] O conceito evocado pela delegação de Cingapura na Conferência de  Viena (1993) diz que “os direitos humanos variam de acordo com cada cultura, sendo, na realidade, um produto singularizado de cada experiência histórica”. (HERNANDEZ, Mateus de Carvalho. Universalização do Debate sobre Direitos Humanos no Pós-Guerra Fria: A Conferência de Viena (1993). Disponível em: http://citation.allacademic.com/meta/p_mla_apa_research_citation/3/8/1/1/8/pages381185/p381185-1.php

Acesso em: 04 de março de 2013.

 

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Iara L. A. de Carvalho           -         UNIBH – RIT3AN

A Flor do Deserto, filme produzido em 2009, relata a história de Waris Dirie, uma modelo somali que ganhou fama em Londres, e depois mundialmente, após superar as tradições culturais de seu país, das quais foi vítima. Waris vivia com a sua família no interior da Somália, e aos três anos de idade, fora circuncisada, seguindo a tradição somali, que acredita que a circuncisão feminina é a base para purificação da mulher. Sem saber a densidade que este ato iria causar para sua vida, Waris vivia sua vida normalmente, porém, seguia seus instintos e valores. Aos treze anos de idade, ao ser prometida em casamento com um homem mais velho, Waris foge de sua aldeia e vai à busca de sua avó, que reside na capital da Somália, Mogadíscio. Sua avó, acreditando no potencial de Waris, lhe ajuda a ir a Londres.

O filme, baseado em fatos reais, descreve a busca de Waris por uma vida melhor. Depois dos sofrimentos vividos na Somália, tais como a circuncisão e tentativas de estupro, ela busca uma vida diferente em Londres, na qual ela inicia como empregada doméstica na embaixada da Somália.  Segundo Emílio Garcia, os direitos humanos são a linguagem na qual os indivíduos criam uma defesa de sua autonomia contra a opressão da religião, do Estado, da família e do grupo; e esta concepção de direitos humanos para Waris era inexistente, e ainda é para as mulheres da Somália.

Com o final da Guerra Civil na Somália, os membros da embaixada voltam para seu país; diante de tal situação, Waris aproveita a oportunidade para fugir. Sem destino, Waris passa alguns dias na rua, até contar com a ajuda de Marilyn, que viria a ser sua melhor amiga. Waris inicia a sua vida em busca de uma inserção no universo inglês, logo, ela encontra um emprego em uma lanchonete, com o auxilio de Marylin, que futuramente seria o local no qual ela conhece o famoso fotógrafo britânico, Terry Donaldson, que iria introduzi-la ao mundo da moda.

Ainda resistente aos costumes britânicos, Waris encontra dificuldade de inserção, uma vez que seus valores culturais somalis ainda são fortes. Depois de sair com Marylin para se divertir, Waris se depara pela primeira vez com a ideia de que as mulheres somalis tiveram sua liberdade de escolha usurpada. Marylin, depois de conhecer um rapaz na boate, o leva pra casa casualmente; conduta qual Waris condena, expondo a ideia de que a mulher tem que ser circuncisada e pura, para que somente seu marido possa “cortá-la” e inicia-la sexualmente. Após Marylin explicar para Waris a realidade britânica e ‘ocidental’, que vai de contraponto com os ideais somalis, Waris se sente traída, e após vários anos de dor, ela decide ir ao hospital para que a sua circuncisão mal feita, seja reparada de forma que ela possa viver sem dores. Ainda mesmo no hospital, Waris foi julgada por um enfermeiro somali, que a condenou por quebrar as tradições do país.

É evidente o embate entre o universalismo e o relativismo no filme, nos levando a considerar se o ato de circuncisão, existente há três mil anos, deve ser condenado ou não. Diante da visão universalista, os direitos humanos devem ser iguais, logo, este ato deve ser erradicado, e os costumes tradicionais ocidentais devem ser implantados na Somália, tendo em vista que a circuncisão, de forma explícita segundo a visão ocidental, viola os direitos da mulher. Em contraponto, a visão relativista nos coloca de frente com a tradição somali, que foi respeitada no país por três mil anos, e ainda hoje encontra adeptos do sexo feminino para a prática. Waris faz a escolha relativista, uma vez que ela considera que todas as mulheres devem ter o direito de saber quais opções lhe são dadas no mundo, tendo em vista que ela viveu toda a dor da pratica da circuncisão e atualmente defende o direito de liberdade e erradicação da mutilação feminina.

Em 1993 acontecia a Conferência de Viena, que marcou a universalização do debate sobre Direitos Humanos no cenário Pós Guerra Fria. Nesta conferência, os países africanos, representados pela Reunião Regional Africana, promoviam que a proteção dos direitos humanos deve levar em consideração a história, cultura e a tradição de cada sociedade para que possa haver uma “universalização” efetiva. Diante de tal fato, percebemos que os países africanos sobrepõem a tradição sob os direitos humanos universais, exigindo que suas tradições culturais sejam respeitadas.

Depois de entender a liberdade feminina, Waris usa de sua influência internacional devido a sua carreira de modelo para contar ao mundo a sua história e lutar contra a prática da circuncisão nos países africanos. Hoje Waris é embaixadora da ONU na defesa da erradicação da prática da Mutilação Genital Feminina, que ainda é existente em várias culturas no mundo.

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Allan Pedroso Freire (UNI-BH – RIT3AN)

O filme “Flor do Deserto” (Desert Flower, 2009) descreve a história verídica da modelo somaliana Waris Dirie, que fugiu de seu país no intuito de escapar de um casamento forjado, devido a seu histórico cultural e religioso, e que no decorrer de sua vida, foi “descoberta” acidentalmente por um famoso fotógrafo inglês, e que então, sua vida mudou de rumo completamente.

Waris é proveniente de uma tribo nômade do deserto da Somália, e logo aos três anos de idade foi levada pela sua mãe, seguindo as centenárias tradições culturais somalianas, à uma anciã para que ela efetuasse o que eles chamam de “limpeza” que é a remoção do clitóris e a junção através de cortes na vagina da mulher. Essa é a forma de manter a mulher virgem e “pura” até o dia de seu casamento, para que seu marido a reabra, utilizando de algum objeto cortante.

Para fugir de um casamento forçado pelos pais, com um homem bem mais velho, Waris, na época, com seus doze anos de idade, foge para a casa de sua avó na capital do país em Mogadíscio. Depois de viver com a avó alguns anos, ela se muda para Londres, e começa a trabalhar como prestadora de serviço, até ser observada ocasionalmente por Terry Donaldson, um fotógrafo de renome. Após certa resistência, ela concorda em entrar no ramo da moda, e começa a fazer sucesso internacionalmente. Após aposentar das passarelas, Waris Dirie se tornou embaixadora da ONU na defesa pela erradicação da Mutilação Genital Feminina.

Relacionando o filme com as teorias de direitos humanos nas relações internacionais, pode-se perceber claramente o embate teórico do Universalismo versus Relativismo nas várias personagens acerca no decorrer do filme. Waris tinha uma visão de que a prática da mutilação genital feminina é algo comum, que acontece com todas as mulheres, até sua conversa sobre sexo com sua companheira de quarto. Nesse momento, ela entende que o fato da “pureza feminina” através da circuncisão não é algo obrigatório a todas as mulheres, e sim, apenas a todas as mulheres que queiram se adequar aos contratos sociais de sua comunidade somali. Nesse momento, há o sentimento de perda e uma mudança de seus valores culturais mais internos, já que ela passou por algo abominante, apenas porque era uma tradição. Essa visão de Waris a trata como defensora do universalismo, onde ela se atribuía à auto-caracterização de “ser humano”, e assim, condena aqueles atos dependentes dos costumes, como casamento forjado e mutilação, pois os mesmos retiram direitos primários, naturais à condição humana.

Em contraponto à essa visão, temos a posição do enfermeiro somali que crítica Waris por buscar a quebra da tradição e costumes de sua terra natal. Ele defende que esses valores não são entendidos na sociedade ocidental, e que se ela continuasse com a operação (de reparo nos órgãos genitais) ele estaria manchando a sua honra própria, da sua família e de toda uma sociedade que tem esse ato como um costume padrão. Embora ele também esteja vivendo fora de seu país natal, ele não se deixa permear pela liberdade sexual ocidental (pelo menos, não para as mulheres), deixando a entender que esse costume é algo legítimo para aquela comunidade, e como pertencente daquela localidade, Waris deveria repensar em quebrar tal tradição.

Percebe-se então a influência das teorias universalistas, tentando assentir um nível básico de direitos humanos universais, já que todos os seres humanos são “humanos” de fato, e portanto, deveriam definir um piso de humanidade. Defendendo essa ideia, temos Waris discursando em um fórum das Nações Unidas, expondo sua história e criticando os atos que acometem crianças e jovens mulheres por toda a África. Segundo a própria ONU, esse ato de mutilação genital feminina (circuncisão, ou corte), não traz nenhum benefício higiênico ou em prol da saúde da mulher, e sim, danos psicológicos (também, possível e indiretamente, morais).

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